Os
principais heterônimos
Umas das características mais evidentes das obras
literárias de Fernando Pessoa é o estabelecimento da cisão do eu lírico e o eu
empírico, ou seja, o autor sabia separar muito bem o eu lírico que é a voz da
poesia, o eu que está falando na obra do eu empírico que é o autor propriamente
dito.
O ano de 1914 foi um ano muito marcante para a vida de
Fernando Pessoa, que designou este ano como o “ano triunfal de sua vida”, pois
foi nesse ano que o poeta criou os seus heterônimos. Para compreendermos o que,
de fato, eram os heterônimos de Fernando Pessoa, precisamos compreender um
pouco mais à cerca de sua obra ortônima.
O
ortônimo
Podemos definir o ortônimo de Fernando Pessoa
como sendo o conjunto de trabalhos que ele assinou com o próprio nome e suas
com particularidades estilísticas diferenciadas. A obra ortônima de Pessoa passou por diferentes fases, mas envolve
basicamente a procura de um certo patriotismo perdido, profundamente
influenciado, em vários momentos, por doutrinas religiosas (como a teosofia) e sociedades secretas (como a Maçonaria). A poesia resultante tem um certo ar mítico, heroico (quase épico, mas não na acepção original do termo) e por vezes trágico.
Os heterônimos
Os heterônimos, diferentemente dos ortônimos,
são as diversas obras em que o autor assinou com diferentes nomes. Para uma
obra ser considerada um heterônimo ela precisa ter características específicas
como: nome próprio, biografia própria e obra própria. Dentre as dezenas de heterônimos
criados por Pessoa, podemos destacar três, sendo eles: Alberto Caeiro, Ricardo
Reis e Álvaro de Campos.
Álvaro de Campos
Entre todos os heterônimos, Álvaro de Campos foi o único a manifestar fases
poéticas diferentes ao longo da sua obra. Era um engenheiro de educação inglesa
e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em
qualquer parte do mundo.
Começou a sua trajetória como um decadentista (influenciado pelo simbolismo),
mas logo aderiu ao futurismo. Álvaro de Campos era revoltado, crítico e fazia a apologia
da velocidade e da vida moderna, com uma linguagem livre, radical.
Álvaro de
Campos também é conhecido pela expressão de uma angústia intensa, que sucedeu
seu entusiasmo com as conquistas da modernidade. Na fase amargurada, o poeta escreveu longos poemas em que
revela um grande desencanto existencial.
Tabacaria
"Não
sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. (...)."
Alberto
Caeiro
Nascido em Lisboa,
teria vivido quase toda a vida como camponês, quase sem estudos formais. Teve
apenas a instrução primária, mas é considerado o mestre entre os heterônimos
(pelo ortônimo). Depois da morte do pai e da mãe, permaneceu em casa com uma
tia-avó, vivendo de modestos rendimentos e morreu de tuberculose.
Também é conhecido como o poeta-filósofo, mas rejeitava este título e pregava
uma "não-filosofia". Acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se
com a metafísica e qualquer tipo de simbologia para a
vida.
Os escritos pessoanos que versam sobre a caracterização dos heterônimos,
conferem a Alberto Caeiro um papel quase místico, enquanto poeta e pensador.
Reis e Soares chegaram a compará-lo ao deus Pã, e Pessoa esboça-lhe um
horóscopo no qual lhe atribui o signo de leão,
associado ao elemento fogo"Uns agem
sobre os homens como o fogo, que queima nele todo o acidental, e os deixa nus e
reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça,
Caeiro teve essa força."
Dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, Caeiro foi
o único a não escrever em prosa. Alegava que somente a poesia seria capaz de
dar conta da realidade.
Sua poesia era
aparentemente simples, mas que na verdade esconde uma imensa complexidade
filosófica, a qual aborda a questão da percepção do mundo e da tendência do
homem em transformar aquilo que vê em símbolos, sendo incapaz de compreender o
seu verdadeiro significado.
A Criança
"A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer. "
Ricardo
Reis
O heterônimo Ricardo Reis é descrito como um médico que
se definia como latinista e monárquico.
De certa maneira, simboliza a herança clássica na literatura ocidental,
expressa na simetria,
na harmonia e num certo bucolismo,
com elementos epicuristas e estoicos.
O fim inexorável de todos os seres vivos é uma constante na sua obra, clássica,
depurada e disciplinada. Faz uso da mitologia não-cristã.
O médico Ricardo Reis foi o heterônimo “clássico”
de Fernando Pessoa, pois observa-se em toda sua obra a influência dos clássicos
gregos e latinos baseada na ideologia do “Carpe Diem”, diante da brevidade da vida e da necessidade de
aproveitar o momento.
Anjos ou Deuses
"Anjos
ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nos e compelindo-nos
Agem outras presenças.
Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,
Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem E nós não desejamos."
Referências Bibliográficas:
http:/www.companhiadasletras.com.br/trechos/35012.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=6Hq4eI8nybE
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa
http://brasilescola.uol.com.br/literatura/fernando-pessoa-seus-heteronimos.htm
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa
http://brasilescola.uol.com.br/literatura/fernando-pessoa-seus-heteronimos.htm

Nenhum comentário:
Postar um comentário