domingo, 7 de maio de 2017

Os principais heterônimos

Os principais heterônimos

Umas das características mais evidentes das obras literárias de Fernando Pessoa é o estabelecimento da cisão do eu lírico e o eu empírico, ou seja, o autor sabia separar muito bem o eu lírico que é a voz da poesia, o eu que está falando na obra do eu empírico que é o autor propriamente dito.

O ano de 1914 foi um ano muito marcante para a vida de Fernando Pessoa, que designou este ano como o “ano triunfal de sua vida”, pois foi nesse ano que o poeta criou os seus heterônimos. Para compreendermos o que, de fato, eram os heterônimos de Fernando Pessoa, precisamos compreender um pouco mais à cerca de sua obra ortônima.

O ortônimo

 Podemos definir o ortônimo de Fernando Pessoa como sendo o conjunto de trabalhos que ele assinou com o próprio nome e suas com particularidades estilísticas diferenciadas. A obra ortônima de Pessoa passou por diferentes fases, mas envolve basicamente a procura de um certo patriotismo perdido, profundamente influenciado, em vários momentos, por doutrinas religiosas (como a teosofia) e sociedades secretas (como a Maçonaria). A poesia resultante tem um certo ar mítico, heroico (quase épico, mas não na acepção original do termo) e por vezes trágico.

Os heterônimos

 Os heterônimos, diferentemente dos ortônimos, são as diversas obras em que o autor assinou com diferentes nomes. Para uma obra ser considerada um heterônimo ela precisa ter características específicas como: nome próprio, biografia própria e obra própria. Dentre as dezenas de heterônimos criados por Pessoa, podemos destacar três, sendo eles: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.



Álvaro de Campos


Entre todos os heterônimos, Álvaro de Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo da sua obra. Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo.
Começou a sua trajetória como um decadentista (influenciado pelo simbolismo), mas logo aderiu ao futurismo. Álvaro de Campos era revoltado, crítico e fazia a apologia da velocidade e da vida moderna, com uma linguagem livre, radical.
Álvaro de Campos também é conhecido pela expressão de uma angústia intensa, que sucedeu seu entusiasmo com as conquistas da modernidade. Na fase amargurada, o poeta escreveu longos poemas em que revela um grande desencanto existencial.

Tabacaria 

"Não sou nada.

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. (...)."


Alberto Caeiro

 Nascido em Lisboa, teria vivido quase toda a vida como camponês, quase sem estudos formais. Teve apenas a instrução primária, mas é considerado o mestre entre os heterônimos (pelo ortônimo). Depois da morte do pai e da mãe, permaneceu em casa com uma tia-avó, vivendo de modestos rendimentos e morreu de tuberculose. Também é conhecido como o poeta-filósofo, mas rejeitava este título e pregava uma "não-filosofia". Acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se com a metafísica e qualquer tipo de simbologia para a vida.
Os escritos pessoanos que versam sobre a caracterização dos heterônimos, conferem a Alberto Caeiro um papel quase místico, enquanto poeta e pensador. Reis e Soares chegaram a compará-lo ao deus , e Pessoa esboça-lhe um horóscopo no qual lhe atribui o signo de leão, associado ao elemento fogo"Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima nele todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça, Caeiro teve essa força."
Dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, Caeiro foi o único a não escrever em prosa. Alegava que somente a poesia seria capaz de dar conta da realidade.
Sua poesia era aparentemente simples, mas que na verdade esconde uma imensa complexidade filosófica, a qual aborda a questão da percepção do mundo e da tendência do homem em transformar aquilo que vê em símbolos, sendo incapaz de compreender o seu verdadeiro significado.


A Criança 

"A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas

Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer. "


Ricardo Reis
O heterônimo Ricardo Reis é descrito como um médico que se definia como latinista e monárquico. De certa maneira, simboliza a herança clássica na literatura ocidental, expressa na simetria, na harmonia e num certo bucolismo, com elementos epicuristas e estoicos. O fim inexorável de todos os seres vivos é uma constante na sua obra, clássica, depurada e disciplinada. Faz uso da mitologia não-cristã.
O médico Ricardo Reis foi o heterônimo “clássico” de Fernando Pessoa, pois observa-se em toda sua obra a influência dos clássicos gregos e latinos baseada na ideologia do “Carpe Diem”, diante da brevidade da vida e da necessidade de aproveitar o momento.

Anjos ou Deuses 


"Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nos e compelindo-nos
Agem outras presenças.
Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,
Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem E nós não desejamos."

Referências Bibliográficas: 
http:/www.companhiadasletras.com.br/trechos/35012.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=6Hq4eI8nybE
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa
http://brasilescola.uol.com.br/literatura/fernando-pessoa-seus-heteronimos.htm

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